Ponto de Não Retorno (Infra-ordinário) é um filme construído inteiramente a partir de imagens apropriadas de telejornais, programas policialescos e câmeras de vigilância. Reorganizados em uma sequência contínua de perseguições, acidentes, flagrantes, esperas e acontecimentos suspensos, esses fragmentos revelam uma paisagem visual marcada pela repetição incessante de eventos transformados em espetáculo. A narração incorpora trechos do texto Infra-ordinário, de Georges Perec, deslocando o olhar das grandes narrativas para aquilo que permanece à margem da atenção. Ao colocar em fricção a lógica sensacionalista dos meios de comunicação e a observação do cotidiano proposta por Perec, o filme produz uma inversão de perspectiva: não se trata de acompanhar o acontecimento extraordinário, mas de observar os mecanismos que o tornam visível, repetível e consumível. Entre arquivos televisivos, imagens de vigilância e ruídos da informação contemporânea, Ponto de Não Retorno (Infra-ordinário) assume a forma de uma introdução permanente, um prólogo que se prolonga indefinidamente, como a promessa de um filme que está sempre prestes a começar, mas nunca começa.



